segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

---- Isso traduz...

O TÉDIO


Eu venho consutar-lhe uma enfermidade
Que me punge doutor e martiriza
Rouba-me a razão a mocidade
Negro cancro que nunca cicatriza.

É a moléstia que gera a hipocondria
Mui vulgar, porém insuportável
Rouba-me sem trégua, implacável
O sossego do espírito e a alegria.

Vós que sóis um filósofo profundo
Conhecedor do coração humano
O médico mais sábio desse mundo
Eu creio que curareis o mal insano que me atrofia a mente e esmaga.

Eu tenho um coração que não palpita
Cabeça que não pensa e não divaga
O tédio negro me envenenou os dias
Tédio que mata, tédio que assassina
Como os beijos vendidos na orgia de uma noite intérmina
Noite libertina.

O sábio, meditava em face do cliente
Tem razão, o senhor está muito doente
No entanto, a moléstia estranha que o devora
Mui vulgar e comum nesses tempos de agora,
Uma grande emoção, um grande sentimento
Às vezes valem muito e operam no momento o milagre da cura

O tédio é uma sombra, uma fatal loucura
É a noite indefinida do humano coração
Faz esquecer a sorte, faz esquecer a vida
Faz esquecer o eu e faz lembrar a morte

Diga-me: nunca amou?
Nunca em sua vida um coração bateu de encontro ao seu emocionado?

Não...


Pois é preciso mover-se
Aturdir-se meu caro,
Em busca de um prazer,
De um prazer bem raro.

Já foi à Grécia?
Ao Oriente, a Terra Santa?
Lá onde tudo fala
E tudo canta?

Num passado já morto, de mortas tradições
Que amesquinham, no entanto, as novas gerações,
Gastei a mocidade. Em híbridos prazeres viajei
Viajei, como um judeu errante da lenda secular

E dentre as mulheres que meus lábios beijaram
Numa hora delirante de loucura infernal
Nenhuma só sequer
Deixou de ser para mim uma estranha mulher

Desculpe meu doutor
O mal é sem remédio
Cura-se tudo
Mas não se cura o tédio

Vá ao circo senhor!
Talvez as liguinadas do palhaço
Que as multidões inteiras não cessam de aplaudir
Lhe arranquem a boa gargalhada e lhe façam sorrir

Já sei o meu doutor, que o mal é incurável!

Quem as multidões diverte a ri no Coliseu,
O riso que ele tem é um riso aparvalhado
Que a miséria encobre, um riso desgraçado
Esse palhaço sou eu.


Heinrich Heine

Nenhum comentário: