terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Rodando


Você acorda com dor de cabeça e não enxerga nada além de tédio e rotina... Você inevitavelmente não tem a quem recorrer... não há companhia... Seu amigos, sua família... Todos tem algo a fazer, mas você não tem muitas opções... se tranca, se afasta... acha que não há mais nada a fazer. Chove lá fora a todo instante, e a paisagem da cidade não te distrai mais... Você tem 85 canais a sua disposição mas acha tudo um saco... Então, você olha na garagem, e lembra dos minutos em que tudo desaparece...
Só os minutos que precedem a decisão de virar a chave no contato rumo a um lugar diferente ja irradia sua alma, embora ainda esteja "fraco" diante de tudo. Mas você vira a chave no contato. O barulho do motor ligado, a chuva caindo, o limpador ativo... Os faróis acesos, e derrepente, a estrada. O tempo até muda diante dos seus olhos. "Estou sonhando? Ou isto realmente está acontecendo?" Você até tira uma foto para saber que esteve realmente ali... Abre-se uma cortina, diante daquela água toda caindo, e você entende que aquele momento é seu, e apenas seu. Ninguém pode tirá-lo. Não há corações quebrados, amores mal resolvidos. Não há horários, nem regras, nem rotinas. Não há ninguém te perturbando. Só há você e o tapete preto pontilhado à sua frente. Um gole da água com sabor de limão, o vento batendo no pára-brisas. No retroviso, a cortina de água e as nuvens carregadas, despejando toda a sua energia sob o solo. Dá a impressão de que você deixou tudo para trás... Da a ligeira sensação de libertação de todos os seus problemas que só você consegue sentir o peso... Não há gritos, não há responsabilidades, nem prazos. Não há cobranças nem julgamentos. É apenas você e a estrada. É apenas você, ali, vivendo alguns centimetros daquilo que você sabe que é e que foi um dia. É apenas você, resgatando a si próprio daqueles medos inconscientes e desnecessários que todos os dias você tem que viver.
Dirigir não é uma redenção. É algo tão mecânico que você nem percebe que está fazendo... Mas experimente um dia, pegar uma estrada, sem destino, sem rumo, sem lugar para parar. Encha o tanque e veja até onde pode chegar... ou melhor, veja até onde você quer chegar. Limpe sua mente e apenas contemple. Admire cada km rodado, cada ultrapassagem, cada carro que passa por você na reta oposta... Escolha uma boa música, mas escolha músicas que não te lembrem nada. Ou no máximo, aquelas que te levam a ter a nostalgia inexplicável, a saudade de algo que não existiu (ainda) para você. Coloque seu rosto para fora e sinta o vento forte batendo em seu rosto. Escolha uma tarde para fazer isso, de preferência com o sol na sua direita ou na sua esquerda, tanto faz... Mas escolha aquele horário em que ele vai caindo... que aquele amarelo indescritível começa a bater na paisagem. Curta cada segundo, por que é muito rápido. Esse amarelo não dura mais do que 3 ou 5 minutos. Mas a mágica em si que esta mistura de crepúsculo, paisagens e estrada tem sobre sua alma é uma coisa que você só vai conseguir sentir quando fizer.
Pegue a estrada. Sempre. Pode estar chovendo, e muito, mas talvez você encontre o tempo bom mais adiante, e pode ver e sentir coisas que talvez nem imaginava existirem...
Meu refúgio... Ele ainda existe naquele lugar? Ou a mudança que aconteceu também o migrou nas mágicas manhas de domingo que eu, evidentemente, SEMPRE estava ali?
É preciso descobrir, e vai ser uma evolução incrível.
Rodando, sempre... Pelas estradas e madrugadas.

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